DA MORTE DO PLANO (1960)
por Lygia Clark
O plano não passou de uma concepção criada pelo homem, como uma manifestação prática para satisfazer sua necessidade de equilíbrio. O quadrado foi criação de ordem abstrata que veio atravez do plano. O plano sendo a espessura do espaço, deu ao homem todo um conceito racional e falso da sua própria realidade. Criou-lhe o alto e o baixo, os lados inversos, destruiu a unidade dele como elemento de um todo. Dentro desse conceito o homem projetou de dentro de si sua parte transcendente, dando-lhe o nome de Deus; o problema da sua existência teve início. O homem inventou o espelho da sua própria espiritualidade. O quadrado expressa pois um sentido mágico, quando representa para o artista a visão total do mundo. O plano morreu. A concepção filosófica que o homem lhe emprestou já não lhe satisfaz, assim como a concepção da existência de um Deus fora dele, que deve ser redescoberto dentro dele mesmo, como um todo indivisível. É essa introjeção que arrebenta o retângulo e faz com que o artista o engula também. O artista se punha diante dele e se projetava nele, ultrapassando-se pois o que fazia era dar transcendência a essa superfície. Demolir o plano como suporte de expressão é tomar consciência da unidade como um todo vivo, orgânico, incorporá-lo e vivê-lo. É Deus que se identifica com a gente ou somos nós que o redescobrimos como parte integrante de nós mesmos. Somos uma totalidade; é hora de unirmos todos os pedaços que como um caleidoscópio fragmentaram-se pela própria concepção do homem. Caímos na totalidade do cosmos, somos parte dele, vulneráveis em todos os lados que deixaram de ser lados; o alto e o baixo, o esquerdo e o direito, assim como o bem e o mal, são conceitos que se transformam. O homem contemporâneo foge das leis da gravidade de ordem espiritual; ele aprende a flutuar dentro da realidade do cosmos como também dentro da sua própria realidade interior concebida. É a experiência primeira que começa.
A percepção de que uma obra de arte hoje deveria ser viva como um "organismo", me veio atravez de um caramujo no momento em que o tinha seguro na palma da mão, sentindo aí sua organicidade atravez do seu espaço contínuo.

Comentários
Postar um comentário