por Gérard Courant
Muito insatisfeito com a escassa difusão do cinema de vanguarda e ele próprio vítima desse estado das coisas, Maurice Lemaître foi o primeiro, na França, a propor a ideia de projeções paralelas de cinema, alguns poucos anos após os primórdios da Filmmaker's Cooperative de Nova Iorque, fundada por Jonas Mekas e pelos cineastas independentes americanos. Nos Estados Unidos, após uma longa reflexão, Jonas Mekas tinha compreendido que a única maneira de existir era reunir todas as forças vivas para criar uma rede de difusão por todo o país, que permitiria exibir os filmes e, aos seus autores, ganhar um pouco de dinheiro graças às receitas obtidas com o aluguel de suas obras. Na França, ainda não se estava nesse ponto. Haviam cineastas, mas cada um trabalhava por conta própria, e seus filmes eram raramente projetados ou simplesmente não eram projetados.
Já em 1967, Maurice Lemaître põe suas ideias em prática: cria o movimento dos café-cinema. As projeções aconteciam no Café Colbert, em Paris, e a primeira ocorreu em 1º de novembro de 1967 na mais absoluta ilegalidade, pois os filmes não possuíam o visto de censura emitido pelo Centro Nacional da Cinematografia e a sessão, não comercial, não estava sob a égide de uma federação de cineclubes, a única habilitada, naquela circunstância, a organizar projeções não comerciais.
Que filmes se podia ver por ocasião dessas projeções? Os filmes de Maurice Lemaître, evidentemente, assim como numerosos ensaios de jovens cineastas do cinema experimental que aproveitavam esse espaço aberto para exibir seus filmes pela primeira vez. Lemaître organizava suas sessões sob a forma de um programa duplo: se, na segunda parte, apresentava os filmes dos quais acabamos de falar, na primeira exibia os clássicos da vanguarda francesa dos anos 1920, os filmes de René Clair, Francis Picabia, Germaine Dulac, Antonin Artaud, Man Ray, Viking Eggeling, Walter Ruttmann e Fernand Léger.
Em seus folhetos roneotipados da época, Maurice Lemaître explicava que não se devia esperar nenhuma ajuda dos profissionais "estabelecidos" para melhorar a situação da vanguarda na França. Cabia aos próprios cineastas assumir a difusão de seus filmes, em vez de aguardar uma colaboração da profissão, ocupada demais em defender seus interesses e privilégios... de classe. A quase totalidade, explicava ele, dos cineastas ditos profissionais, e mesmo aqueles que se diziam progressistas — incluindo os da Nouvelle Vague —, provinham da burguesia.
Seis meses antes de Maio de 68, uma organização como essa poderia parecer utópica, mas, quando se mede hoje o caminho percorrido pela difusão do cinema de vanguarda, graças, entre outras coisas, à multiplicação das cooperativas de distribuição do cinema experimental, compreende-se melhor a importância visionária de Maurice Lemaître. Não apenas como cine-artista, mas também como precursor do movimento de difusão paralela do cinema de vanguarda.
Maurice Lemaître terminava seu manifesto para a criação de seu café-cinema com uma declaração muito violenta, ao estilo de Dziga Vertov: "Jovens cineastas, inovadores do cinema, revoltem-se! Abaixo os decrépitos do cinema! Criem vocês mesmos os seus café-cinema"
E seu apelo foi ouvido!
Les Soleils d'Infernalia, n° 13 bis, maio de 1977. Retirado de https://www.gerardcourant.com/. Traduzido por Giovanni Silveira.
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