Samba em Berlim, por Júlio Bressane

SAMBA EM BERLIM


por Júlio Bressane

Berlim, 1968.

Estamos, Helena Ignez, Paulo César Saraceni e eu, hospedados em um grande hotel durante o Festival de Cinema.

No bar do hotel nos surpreendemos com Orson Welles, cercado por jornalistas. Tomamos conhecimento de que em alguns minutos Welles estaria na sala de conferências para um encontro com a imprensa.

Dirigimos-nos, os três, para lá, apressados, ainda longe de imaginar o que veríamos. Um acontecimento com gosto de uma iniciação!

A sala superlotada do auditório fervilha. Welles entra, surge, passo lento, dirige-se à mesa central. Senta-se, diz algumas palavras em inglês, espera as perguntas, que lhe são dirigidas em diversos idiomas  alemão, italiano, tcheco, búlgaro, francês  e Welles, em franco desconforto, não as compreende. Súbito, com um grito, levanta-se, sai da mesa.

E volta em seguida acompanhado de uma bela jovem indiana trajada de sári verde, um verde profundo de folha de louro: é a tradutora.

Welles, eufórico, berra aos jornalistas: “Perguntem o que quiserem, ela traduz. Sabe mais de dez idiomas!”

Aí começa uma verdadeira aula de mise-en-scène e savoir faire...

Animado, carnavalesco, ele fala de seu filme, que está a terminar, Dead reckoning, com Laurence Harvey e Jeanne Moreau. Faz um elogio a Moreau: “Quem não gostaria de tê-la em um filme?”, pergunta orgulhoso.

Sempre apressados, alguns jornalistas, chocados com a teatralidade, o tom de Welles, começam a se retirar da sala.

Welles adverte, irritado: “Fiquem, as boas piadas começam em breve!”

Com sua voz inconfundível, o cascalhar de sua risada, desafia todos os presentes a simpatizar com ele. Sua treinada voz, instrumento emotivo, faz a mise-en-scène.

A voz, desde o início, foi força construtiva, pigmento constante, do estilo de Orson Welles. Voz prenhe de imagem. Alguns gestos expressivos, a modulação de sua gargalhada radiofônica, inflexão combinada com a voz ondulante, de vários tons, patética, sugerem uma imagem, criam a mise-en-scène de uma película projetada em um espaço novo.

Espaço inesperado, espaço auricular, onde a cena é escutada, evocada, sugerida, traduzida, representada... Imagem-voz, realidade não visível, que se pressente, que se alucina.

Voz-arte, voz-cor, voz-luz, voz-voz.

Em instante de trégua na conferência remexida, um homem, talvez um crítico, não estou certo, propõe a Welles que fique 24 horas em Berlim para lhe conferir um prêmio, um prêmio criado naquele instante!

Welles sorri, agradece, diz, distraidamente, para as paredes:

“Para mim a montagem é o mais importante.”

Logo em seguida, minutos depois, sentencia, como uma alternativa às grandes produções, aos grandes elencos:

“Um grande filme pode ser feito dentro de um Volkswagen!”

A coisa continuou...

Welles, em determinado momento do improviso  improviso de uma cena rodada com lente grande angular e profundidade de foco  pergunta ao auditório, dirigindo-se às pessoas que estão à sua frente, qual a nacionalidade de cada um.

Uma gargalhada torrencial, demente, de Welles, jogada sobre o auditório, provoca um pavor e fascínio generalizados. Um zumbido farfalha, de cadeira em cadeira, numa inquietação incomum, exagerada...

Depois de algumas identificações, algumas hesitações e omissões, eu digo que estão ali presentes três brasileiros. Welles então abre um largo sorriso, animado, cantarola Brasil, Brasil e reproduz com as mãos o gesto musical de Carmen Miranda.

Helena Ignez e Paulo Cezar Saraceni ensaiam, em resposta, alguns passos de samba.

O velho Welles, que ainda não era velho, vibra, seus olhos faíscam um raio benéfico. Ele fica escarlate de paixão e recorda em breves palavras seus dias de juventude, da invenção do seu cinema no Brasil, das boas lembranças dos antigos carnavais cariocas...

Depois de certa confusão e mau humor, esgazeado, Welles encerra a entrevista-performance.

Na saída, da varanda aberta do prédio, o vemos. Alto com o cabelo pintado de cor laranja, ele nos reconhece, dirige-se com carinho a Helena Ignez, beija-a, aperta a mão de Saraceni e a minha. Conta-nos que no Brasil, infelizmente, nada deu certo para ele. Lembra-se do “inteligente” Lourival [Fontes] e de Grande Otelo. Quando pronuncia, à sua maneira, o nome de Grande Otelo, parece voar no tempo:

“Se eu fosse rico, teria, o tempo todo, ele a meu lado. Foram os grandes que encontrei no Brasil, outro foi o Jacaré.”

Jacaré [Manoel Olimpio Meira], o jangadeiro genial, que, com alguns companheiros, parte do Ceará em direção ao Rio de Janeiro, em uma jangada. Conclui o périplo, é recebido em festa no Rio de Janeiro, e Welles filma a chegada de sua façanha heroica.

Dias depois de terminar a viagem histórica, morre afogado em uma praia carioca, diante da câmera, durante filmagem que Welles fazia no Rio. Morre no mar, de maneira dramática. Uma grande onda traga, inesperadamente, a jangada com os pescadores, virando-a.

No mar revolto, todos os pescadores são salvos, menos Jacaré, que não sabia nadar, diziam algumas versões da época. Outra versão, menos crível, diz ter sido devorado por um tubarão...

Morre em circunstâncias absurdas, e esse acidente atinge Welles, amaldiçoa sua aventura cinematográfica, interrompe o filme.

Um dos heróis de It's all true é sacrificado no mar...

Este seu filme brasileiro é a invenção de uma forma, uma maneira de sentir, de organizar, de compreender, de apreender, de divinizar com a luz, um cosmos local.

Corpo, rosto, dança, música, gesto, toda uma natureza arcaica extraordinária, perdida, representa, interpreta, em película, uma vida atual e inatual, contemporânea e mítica, conhecida e desconhecida, com história e sem história.

Welles com seu sismógrafo alcoolista rompe o espaço, alcança o que não é visível, desvenda com o filme um lugar assombrado, descobre um mundo novo de sobrevivências, pedaços de vida ainda quentes, ainda a sangrar, em um tempo de horror nacional...

Welles nos fala das músicas de carnaval como de um tesouro, de ritmo, de graça, de humor, de poesia, que ouvia repetidas vezes em discos, noites a fio, com pessoas agradáveis, os corpos úmidos, lubrificados, pelo calor tropical...

Delirando, nas fagulhas de sua memória, diz, mentirosamente, que esqueceu na mala de um táxi os negativos de It's all true, naquela época ainda perdidos.

Saraceni menciona Dom Casmurro. Welles afirma que Machado de Assis é o gênio da literatura brasileira, que ele conhece alguns de seus livros, e relembra Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Ao despedir-se, ri baixinho, nos abraça juntos, os três, como se fossemos os seus velhos conhecidos, daquele antigo Brasil, ali evocados...

Uma turba, como uma tênia, escorre barulhenta e o arrasta, carrega-o, para outro lugar...

Na noite de encerramento do Festival, não sei por que razão, ao chegarmos ao cinema, eu, sem lugar, não entrei na sala. Volto ao hotel, e logo no saguão, sem saber, deslizo por uma porta lateral e vou parar em uma saleta mal iluminada.

Quando então vejo Orson Welles, mais uma vez, a última vez, alguns metros a minha frente, de perfil, sozinho, no escuro. Não me vê, nem olha em minha direção, parece tranquilo e encantado. Passam-se apenas um ou dois minutos, quando uma atriz pega-o pela mão, como a uma criança, leva-o para onde ele será homenageado ou entregará prêmio a alguém.

Com seus largos olhos, infantil e triste, vejo-o caminhar, em contraluz.

O balanço vagaroso do corpo pesado, de um homem de pés chatos.

Com sorriso de bebê deixa-se levar pela mão...

Não o vi mais. Não o esqueci mais.

Terminado o festival fomos os três, Helena, Paulo Cezar e eu, para Paris...

A recomendação, o viso, que o poeta Ezra Pound dá à palavra "crítica" e a sua função (escolha própria de clichês na mesma linguagem) coloca Orson Welles como crítico, inventor, criador extremo da história do cinema.

História e geografia do filme. Sua minuciosa micrologia da sobrevivência de formas em fotogramas, sua escolha e recriação de clichês, migração de enquadramentos e angulações em extensão que abrange toda história do cinema, seu cinema do cinema, seu filme de filme, é sem rival.

Foi o maior.

"Dizer menos seria descer, subir mais não há para onde!", assim vibra a sonora corda de Antonio Vieira...

Julio Bressane, Pequena Biblioteca de Ensaios, AB-Cena. pp 10-16.

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