Entrevista: Imagem e Magia, por Jean-Marie Straub, Danièle Huillet e Benoît Goetz

ENTREVISTA: IMAGEM E MAGIA


por Jean-Marie Straub, Danièle Huillet e Benoît Goetz

Benoît Goetz[1]: O que é uma imagem?

Jean-Marie Straub: Tempo e imagem são indissociáveis. Para que uma imagem exista, é preciso lhe entregar um pouco de tempo e um pouco de paciência. Ela precisa ser controlada. Caso contrário, ela não existe; não sustenta a si. Não há imagem na ausência de uma sensibilidade ou uma ideia por trás dela. Falemos de coisas recentes. Ontem à noite, pela primeira vez na minha vida, vi algumas imagens do senhor Claude Berri[2]. É aterrador o que se vê ali. É pior do que todas as imagens publicitárias porque, além disso, é "artístico"! Não há absolutamente nada de popular naquilo, apesar do que o público foi levado a acreditar na TV nos seis meses que antecederam o lançamento do filme... É uma mentira completa; não há o menor grão de sal de um espetáculo popular. Uma hora depois vimos um filme de Griffith, Dream Street, de 1921. É uma história absurda na qual já pressentimos a chegada de Órfãos da Tempestade [Orphans of the Storm], que é o filme mais sadiano de toda a história do cinema e que é, de certa forma, às avessas, mais forte que A Marselhesa [La Marseillaise] de Renoir. Pois bem, é possível odiá-lo ideologicamente, mas é um filme de uma força extraordinária. É um esboço de Intolerância [Intolerance]. Cada imagem é sublime. Ali, sabemos o que é uma imagem.

BG: O que pensa sobre a ideia de "espetáculo"?

JMS: Quando Griffith abre uma porta, há espetáculo, porque realmente existe ali algo de teatral... As pessoas o odeiam por razões ideológicas.

Danièle Huillet: Não é apenas uma questão de teatro, é uma questão de surpresa... a surpresa de descobrir, na vida cotidiana, aquilo que fazemos sem perceber[3].

JMS: Quando ele filma caminhos ou estradas se cruzando, ou quando filma um aterro ferroviário com uma linha de trem em que uma locomotiva desaparece e reaparece, há espetáculo porque há alguma imaginação e porque ele sabe o que é um aterro, ou uma linha de trem, ou um cruzamento.

DH: Ele sabe como mostrá-los. Ele é como um exibidor, um showman... Ele é um homem que cria espetáculo... Mas isso, você também precisa saber como mostrar. Quando Griffith enquadra um aterro, um poste elétrico e uma linha de trem abaixo, isso se torna uma imagem misteriosa e, ao mesmo tempo, uma imagem absolutamente realista. Se não se é capaz dessa combinação de realismo e mistério, é melhor nem se meter a compor imagens.

BG: Então há uma relação entre o termo "imagem" e o de "magia", que é o seu anagrama (magie e image)? Mas o cinema de vocês não brinca com efeitos "mágicos"?

DH: Nós não deveríamos condenar rápido demais a magia. Antes de mais nada, é um sistema cultural. Um sistema que os seres humanos fundaram para tentar compreender o mundo em que viviam.

JMS: Os camponeses tentavam compreender um mundo que nós ainda não compreendemos. Eles inventaram fórmulas rituais porque o homem não tem muitos outros meios à sua disposição além dos rituais.

BG: De onde vem seu fascínio por bruxas?

DH: Quando você alimenta gatos em Roma, você entende o que houve com as bruxas, porque várias vezes senti como se a minha própria pele estivesse em jogo. Então, eu entendi que existiam mulheres que, por olharem para as estrelas, por colherem ervas à noite, por terem gatos que as seguiam... eram queimadas. É isso o que as bruxas são!

JMS: Foram trinta mil mulheres queimadas. Não é pouca coisa!

BG: O mundo moderno destruiu muitas boas coisas, mas realmente precisamos ser nostálgicos em relação ao que havia de mais "pirado" no mundo antigo, ou seja, bruxas, magia, rituais e mitos?

DH: Você acha que nós não vamos passar por "pirados" daqui a alguns séculos?

JMS: Se a música de Bach é, apesar de tudo, mais forte que a de Beethoven e do que veio depois, mesmo que haja [música] demasiada sublime mais tarde, é porque ele não era um indivíduo. Ele era talvez um indivíduo tão forte quanto Beethoven e um certo número de pessoas como Schoenberg, Schubert e Mozart. Seja como for, ele não era apenas um indivíduo. Quando você ouve, de uma só vez, uma sonata para violoncelo de Bach, percebe que há séculos de cultura camponesa por trás dela.

DH: Mais do que isso, há uma maneira de lidar com as coisas... Eu não suporto que sempre desprezemos o que veio antes de nós, com a impressão de que nos tornamos muito fortes. Sendo que, em muitos domínios, ficamos mais burros, mais cegos e mais surdos. Nossos sentidos funcionam muito menos do que os das pessoas que viveram séculos atrás. Portanto, não podemos ser mais inteligentes, pois, afinal de contas, a inteligência vem dos sentidos, se não for o contrário!

BG: Vocês passaram de um marxismo radical para um ecologismo radical?

DH: Nós estávamos na Alemanha e então, em 1969, chegamos à Itália, um país que, em resumo, foi realmente menos afetado do que a Alemanha. E lá testemunhamos uma destruição que não era a da guerra, a última grande guerra europeia, mas a de uma guerra diária que destrói tudo o que já havia sido destruído na Alemanha e na França. Então, inevitavelmente, nos fizemos perguntas, perguntas que já vínhamos fazendo e que se tornaram mais urgentes.

JMS: Na época de Moisés e Aarão [Moses und Aron], eu disse que se nós não tivéssemos aprendido a produzir filmes, eu teria plantado bombas. Não sei se isso é "marxismo radical" ou "ecologismo radical"! Desde a queda do muro e dos chamados ideólogos, não há nada mais urgente a ser retomado do que o discurso marxista, e definitivamente não o discurso ecologista. Não sei o que é um discurso ecologista. Nós não somos pássaros ameaçados de extinção. Um filme vem de outro. Pavese, Kafka e depois Hölderlin...

BG: Na época de Moisés e Aarão, você também disse que esse filme mostrava como o monoteísmo representava um certo progresso em relação ao politeísmo.

JMS: Não, foi Marx quem disse isso. Per forza, como dizem os italianos, representa um progresso em relação ao politeísmo, historicamente. Mas com o desaparecimento do politeísmo, há também algo que se perdeu e que não devemos esquecer. Há uma ternura que desaparece com o politeísmo. Não se pode negar isso sob o pretexto de que o monoteísmo é um progresso relativo na história e de que é mais fácil cortar a cabeça de uma pessoa do que de centenas.

BG: O fato é que as posições de vocês são cada vez mais percebidas como "ecologistas".

JMS: Isso significa que você nunca deve acreditar no que dizemos. Nós deveríamos dizer às pessoas para irem ver nossos filmes, só isso. Se eu pudesse pressionar um botão para eliminar o que estamos fazendo aqui agora e todas as entrevistas que já demos, oralmente ou por escrito, eu faria isso imediatamente. Por outro lado, não há nenhum de nossos filmes que eu queira eliminar. Eles estão apodrecendo em búnqueres. Vou deixá-los apodrecer. Isso é tudo.

(1997)


NOTAS

[1] O professor Benoît Goetz é especialista em filosofia contemporânea e editor da revista de ciências filosóficas e sociais Le Portique. - Ed, esta e todas as notas subsequentes.

[2] É possível que Straub se refira ao filme mais recente de Claude Berri na época, ou seja, sua cinebiografia histórica da Segunda Guerra Mundial sobre uma integrante da Resistência Francesa no filme homônimo Lucie Aubrac (1997). A incursão anterior de Berri nesse período histórico, Uranus, rendeu o desprezo crítico de Serge Daney. Veja sua crítica "Uranus, le deuil du deuil", em Devant la recrudescence des vols de sacs à main: cinéma, television, information (1988-1991) (Lyon: Aléas Éditeur, 1991), 179-83.

[3] Veja também a citação de Jean Renoir feita por JMS em 29: "Dubbing Is Murder": "É sempre uma questão de surpreender a vida. Surpreender a vida é também surpreender uma voz, ruídos no momento... Eu ainda pertenço à velha guarda das pessoas que acreditam na surpresa da vida, no suspiro que uma jovem emite involuntariamente em certas circunstâncias e que não pode ser reproduzido".

[4] (na nota de crédito) Esta entrevista é precedida por uma nota editorial: "Os Straub, isto é, os cineastas Danièle Huillet e Jean-Marie Straub que trabalham juntos, estiveram na França em março de 1997 para apresentar, em um cinema de Paris, dois de seus filmes mais recentes: Lothringen! e Von heute auf morgen. Durante uma escala em Metz, eles tiveram a gentileza de conversar conosco. O que se segue é uma transcrição parcial."

Publicado pela primeira vez em Benoît Goetz, "'Imagiques': Conversation avec Danièle Huillet et Jean-Marie Straub", Le Portique: Revue de philosophie et de sciences humaines, nº 1 "La modernité" (1998)[4]. Retirado de Writings, editado e traduzido por Sally Shafto e Katherine Pickard para o inglês. pp. 247-250. Traduzido para o português por Giovanni Silveira.

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