1. Chegou cedo demais para a nossa morte — tarde demais para a nossa vida. De todo modo, agradeço Marco Müller por sua coragem. Mas o que espero disso? Nada. Nadinha mesmo? Sim, uma pequena vingança. Uma vingança "contra as intrigas da corte", como se diz em A Carruagem de Ouro [Le Carrosse d'or]. Contra tantos velhacos.
Por que Pavese?
Pois ele escreveu:
"Um comunista não é qualquer um que queira sê-lo. Somos ignorantes demais neste país. Precisamos de comunistas que não sejam ignorantes, que não desonrem esse nome"[1].
Ou ainda:
"Se antes uma fogueira bastava para fazer chover, ou queimar um vagabundo bastava para salvar uma colheita, quantas casas de senhores precisam ser incendiadas, quantos precisam ser mortos nas ruas e praças antes que o mundo se torne justo e possamos dizer que é nosso?"[2]
Pavese põe o bastardo a dizer:
"No outro dia passei por La Mora. Não tem mais o pinheiro no portão. Ele mandou cortar, o contador, Nicoletto. Aquele grosseiro. Mandou cortar porque os mendigos paravam na sombra para pedir esmola. Entende?"[3]
Mais uma vez, Nuto, em outra passagem:
"Com a vida que ele leva, não posso tratá-lo como um idiota. Como se adiantasse algo. Primeiro é preciso que o governo queime o dinheiro e quem quer que o defenda"[4].
Abraços!
2. Estive:
- No Festival de Veneza (como jornalista), em 1954; escolhi escrever sobre três filmes: Intendente Sansho, O Rio e a Morte e Janela Indiscreta. Nenhum prêmio!
- No festival (de curtas-metragens), em 1963, com meu primeiro filme, Machorka-Muff (1962): nenhum prêmio.
- No festival, em 1966, com Não Reconciliados (1965). A exibição foi paga por Godard!
- No festival com Crônica de Anna Magdalena Bach.
- Em Veneza para uma retrospectiva (em 1975?) (desejada por Gambetti), de todos os nossos filmes até Moisés e Aarão (1974).
No Festival de Arte Cinematográfica com Quei loro incontri, por um Leão especial.
3. Além disso, eu não conseguiria estar em clima festivo num festival onde há tantos policiais, sejam eles públicos ou privados, à procura de um terrorista — o terrorista sou eu, e lhes digo, parafraseando Franco Fortini: enquanto houver capitalismo imperialista americano, nunca haverá terroristas suficientes no mundo[5].
(Lido originalmente em 2006 por Giovanna Daddi no Festival de Veneza)
NOTAS
[1] Cesare Pavese, A Lua e as Fogueiras. Straub altera aqui a ordem das frases. No original de Pavese, "Somos ignorantes demais neste país" vem antes de "Um comunista não é qualquer um que queira sê-lo" - Trad.
[2] Pavese, Diálogos com Leucó. - Ed.
[3] Ibid., A Lua e as Fogueiras. - Ed.
[4] Ibid. - Ed.
[5] Essas três mensagens foram lidas na coletiva de imprensa de Quei loro incontri por Giovanna Daddi, a intérprete dos últimos cinco Diálogos com Leucó. Ela também foi diretora, junto com Dario Marconcini, do Teatro de Buti, que acolheu os cineastas em suas últimas quatro apresentações que se transformaram em filmes. O júri de Veneza concedeu um prêmio especial de inovação em linguagem cinematográfica a JMS e DH. - Écrits, 275.
* Trechos citados com tradução livre, exceção de "Somos ignorantes demais neste país".
Retirado de Writings, editado e traduzido por Sally Shafto e Katherine Pickard para o inglês. pp. 272-3. Traduzido para o português por Giovanni Silveira.
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