CHYTILOVÁ ENTRE AS MARGARIDAS
por Adriano Aprà
Em Praga, no estúdio Hostivař, que faz parte do grupo Barrandov, tive a oportunidade de ver Věra Chytilová (Algo Diferente) concluir as filmagens de seu segundo longa-metragem: As Pequenas Margaridas, iniciado em locações externas. O tema do filme é a juventude (como nos filmes de Forman, Schorm, Szabó, Khutsieve e, ao que parece, de todos os novos cineastas do Leste). Mas V.C. não respeita seu denso roteiro e, no final das contas, não há um verdadeiro tema. Os atores não são profissionais, e ela os dirige concentrando toda a sua atenção na descoberta dos gestos naturais de seus jovens intérpretes, para inseri-los em uma composição bastante estilizada, de fantasia refinada, que se destaca sobre um cenário de branco resplandecente, repleto de pequenos objetos. O filme, cujo diretor de fotografia é o marido de V.C., Jaroslav Kučera (Diamantes da Noite, Křik), foi rodado parcialmente em cores. V.C. deseja renovar certas técnicas do cinéma-vérité, em voga entre os jovens cineastas tchecos, introduzindo uma estilização tanto na atuação quanto na concepção visual do filme. Mas ouçamos a própria:
"Não se trata de um retrato realista ou psicológico da vida de duas jovens, no sentido tradicional da palavra. Trata-se de um retrato da vida, mas de uma interpretação da vida. Como seres humanos, como indivíduos, essas jovens se recusam a distribuir, a construir sua própria vida e seu próprio mundo e, consequentemente, também a vida e o mundo dos outros. Parasitas. Não apenas em relação aos outros, mas também, e isso é fundamental, em relação a si mesmas.
Mostramos essa maneira de viver e essas relações de maneira que os próprios espectadores, junto conosco, também compreendam e vivenciem sua realidade, a ilusão e a desilusão, essa verdade da mentira. Não queremos fazer crítica a essas duas jovens, que, como tais, são extravagantes e atípicas. Nos ocupamos da crítica ao estilo de vida cujos elementos, em maior ou menor medida, estão presentes na vida típica e ordenada de cada um de nós. Gostaríamos de revelar a futilidade da vida encerrada no círculo vicioso das pseudo-relações e dos pseudo-valores, que conduz necessariamente ao vazio das formas de vida, à encenação da corrupção ou da felicidade.
Trata-se, portanto, de sintetizar determinadas questões relativas ao valor do indivíduo humano, mas um valor que o próprio ser humano deve criar por conta própria e que deve encontrar em si mesmo nas mais diversas situações da vida. Isso não pode acontecer sem uma luta interior, e aquele que não a trava não pode ter êxito. É uma reflexão sobre o desespero do homem que sequer tentou buscar o sentido da vida.
Essa intenção séria deveria ser tratada de maneira absolutamente não séria, sob a forma de uma comédia bizarra, com toques de sátira e sarcasmo em relação às duas protagonistas. Acreditamos alcançar a compreensão e o efeito crítico sobretudo acentuando os aspectos grotescos do que se passa, criando assim um distanciamento para o espectador e conduzindo-o à compreensão do sentido. Sob um certo ponto de vista, trata-se, portanto, de um documento filosófico grotesco".
Retirado de Cahiers du cinéma, n° 174, janeiro de 1966. pp. 14. Traduzido por Giovanni Silveira.

Comentários
Postar um comentário